Desafio-Textos

Sejam bem-vindos ao nosso desafio-concurso!
Aqui partilharemos os textos criados pelos nossos participantes. Votem no vosso favorito e escolham os três finalistas. Vamos nesta aventura, todos juntos, por todos...
Nº1

Quando o feitiço se vira contra o feiticeiro

Dizem que é malícia premeditada. Eu chamo-lhe ajuste de contas.

Não me apele à falência emocional quem nunca me sustentou a carência.

Que me condenem, e prendam e me isolem desta apatia incólume com que nos fodemos uns aos outros sem dó nem piedade, esse engraçado lugar-comum.

Mas tu, meu verme, serás repetidas vezes traspassado pela que outrora foi motivo de cobiça em noites temáticas tão pomposas como hipócritas. Querias chamar a atenção de todos para as caras futilidades com que presenteavas uma simples refeição de sushi? Pois, passaste de sushiman a sashimi em calculados golpes que, noite após noite, abafaram o teu ressonar a escassos milímetros.

Um dia serás tu a fatia com os teus próprios instrumentos de ostentação!

Dir-me-ás que nunca foi a sério, que me amas e por isso sofres. Não! Posso assegurar-te que este sofrimento em nada se compara aos 15 anos de casamento emoldurado no teu sorriso plástico e de fachada cor-de-rosa contrastante ao negro que é o teu coração (se o tiveres).

Pelos menos já não te ouço nem mais uma palavra mais proferir.
Dá-me um minuto. Ah, pois dás!
— Boa noite. Parece que ocorreu um crime no n.º 2, queiram por favor verificar!

 

Márcia Vieira Ávila
Nº3

Lá em baixo a líquida massa azul é dotada de uma infantil irrequietude incentivada pelas braçadas de outrem. Fecho os olhos. Inspiro fundo numa vã tentativa de ganhar coragem.
Tem de ser agora!
Dou um passo em frente e deixo-me cair como um peso morto. Na fração de segundos que me separa do impacto, a adrenalina é injetada no meu corpo, o coração está descompassado e a respiração descoordenada.
Falha-me o fôlego quando o corpo quente entra em choque com o frio da água. Sinto-me tão leve quando continuo a descer e penso que vou chegar ao fundo. Parece que flutuo e movimento-me de forma diferente como se estivesse em outro mundo. Agora instala-se a calma, os sons são abafados e as pequenas bolhinhas de ar fazem cócegas ao sair do nariz.
Sinto picadas no peito! Falta-me o ar! Perco o controlo, a água entra-me pelo nariz e tenho a certeza que vou afogar-me! Esperneio para sair daquele estado! Os sons ficam mais nítidos. 
Tomo uma golfada de ar quando a cabeça ultrapassa a ténue linha para a minha realidade. Agarro-me à beira da piscina a flutuar à tona da água sentindo o coração a voltar à sua batida habitual.

 

Ana Catarina Branco
Nº5

Mergulho no Escuro

Apenas a lua iluminava o caminho. Uma figura andrajosa, arrastava-se na viela escura. Atrás de si, um cachorro de manchas escuras, caminhava sereno.
O calor, ainda se fazia saborear, como resultado de um dia escaldante.
Parou junto ao portão, e espreitou. Tinha por ali rondado dias antes. Rodeada por frondosas árvores, existia uma grande piscina de água azul, refletida pelo seu fundo. -  “Como seria agradável poder refrescar-me". – pensava.
Naquela noite não hesitou, com o coração a palpitar, empurrou o pesado portão, que rugiu de mansinho. Sabia que todos os verões, os donos da mansão, traziam as crianças da família para  passarem os meses  das férias.
Já não havia vestígios de habitantes, e a escuridão do interior, era envolvente. Atreveu-se a pisar a relva, que sentia como um tapete aveludado.
Perto de si, o seu companheiro, não parava de abanar a cauda.
Tirou as velhas calças, nem curtas, nem compridas, deixou cair a camisa, presa com um nó,  por só restarem dois botões. Olhou para o companheiro, dizendo: - “Vamos?”
Ouviu-se o barulho de um corpo a cair na água, de chapão, ao mesmo tempo que grossas gotas se dirigiam em direção ao céu.

 

Ana Roque
Nº7

O meu jogo favorito, em criança, era o Cluedo. 
Com o passar dos anos a minha obsessão por crimes e criminosos foi-se acentuando, trazendo-me até aqui. “Mas que raio se passou?” – gritava interiormente. 
Os visíveis golpes sofridos e a disposição do corpo na banheira remetiam-me automaticamente para o Bates Motel. Quanto à arma usada, eu não tinha dúvidas. A “minha” Marian Crane sentiu dores lacerantes, literalmente. 
Faltava-me o como e quando.
O sangue teimava em não falar comigo, o que para mim era uma novidade. Vi e revi as manchas e os salpicos que ganhavam vivacidade sobre aquelas tristes paredes caiadas. 
Das análises sanguíneas, nada de conclusivo.  
Faltava recorrer ao luminol, substância que ganhou notoriedade graças às milhentas séries de TV que se dedicam a resolver crimes em 40 minutos.
E nisto dá-se a mais bela das reações químicas, a que liberta uma luz que suspende o tempo. E mal os meus olhos entram em contacto com esta luminosidade dá-se uma espécie de regressão até aos últimos minutos de vida do corpo jazido. 
E o que aconteceu, o que ocorreu, naquele quarto passou em fast foward pelos meus olhos e, tal como eu já sabia, tudo começou e acabou com uma fria lâmina digna do Cluedo.

 

Pissarrices
Nº9

Mergulho

-Respira, Joana, respira.
Pensei eu ao tentar controlar a respiração. De seguida, dei um passo e espreitei. Não havia ali nada para me assustar, só conseguia ver o reflexo da minha própria imagem. Porque é que temos medo? Medo de coisas que sabemos que não existem, e que mesmo assim nos paralisam. Neste momento, eu tenho medo, porque apesar de ser um espaço controlado, é muito fundo.
Dei mais um passo, e senti-me a deixar-me ir, para logo depois vir ao de cima. E não é que é assim a vida? O fundo, aquela escuridão e vazio são segundos, mas para quem tem medo, parecem uma eternidade. Tenho medo da eternidade, porque nunca a vi.
Hoje decidi ir ao fundo, de olhos fechados, e vir ao de cima com a pele molhada. Abri os olhos para contemplar a minha vida sonhada e fiquei ali, a boiar, nos contornos da minha imagem.

 

Marília Belmonte
Nº11

Palavras

O eco das tuas palavras soam na minha mente sem cessar. Não consegui reagir a tempo, não tive a agilidade ou a rapidez que deveria.  

Não tive sequer a habilidade mental em desviar a direção de cada palavra, que laceraram a minha pele, outrora ferida com tamanha rispidez.

A dor dessas mesmas palavras transformaram-me. Fizeram de mim uma mulher mais fria, que utiliza o humor e a ironia como arma letal.
Essas palavras, proferidas com tal agressividade levaram a que os meus pulmões se abrissem e a minha garganta se rasgasse.
E sabes que mais? Não saiu uma única palavra.
Os meus gritos mudos estão presos no meu íntimo.
Não permito que me elevem a voz. Não permito que me gritem.
Não permito que um homem, com o carácter e empatia de um verme, me faça sequer pensar em embater com a minha cabeça e o meu corpo a mais de 30 metros.
Ainda está para nascer um homem que me faça querer submergir os meus sentidos. E atirar-me.

Mariana Lourenço
Nº2

Egipto

O estado permanente de férias ultrapassa em bem-estar os limites da barreira do som. Assim se identificam os nómadas digitais.

Não há melhor sensação do que podermos fazer os nossos próprios horários em qualquer canto do planeta e mesmo assim nos sentirmos úteis ao desenvolvimento da economia mundial.

Por aqui não se hiberna nem se migra, mas de três em três meses o poiso muda qual pássaro livre e dono do seu destino.

Desta feita no Mar Vermelho com este azul como fundo parecendo pintado a óleo em tela de linho. Ou não fosse esta a do meu portátil. No entanto basta desviar o olhar e ver lá mais ao longe a praia do resort.

Quase com a sombra das pirâmides sobre a minha cabeça, preciso hoje concentrar-me em entregar, à data limite, o trabalho que se impõe. No entanto não há sombra que valha este calor que mais parece equatorial. Sei os ponteiros em contramão, mas é mais forte do que eu! Baixo o ecrã da obrigação, enfio o chinelo no dedo, desço os 3 degraus que me separam do mesmo azul do fundo na linha do horizonte e mergulho. Amanhã vou lá abaixo à areia no pé! Penso.

Márcia Vieira Ávila
Nº4

Entro na sala. Os seus olhos esbugalham-se como se visse uma assombração. Ele remexe-se na cadeira numa tentativa falhada de libertar-se. Percorro o seu rosto até ao pescoço com a lâmina que reflete a luz quando a pressiono contra a sua pele.

Gritos de pânico!

Com rapidez enfio o objeto no seu peito. Sinto resistência por causa da roupa. Com um pouco de força a lâmina corta e entra sem problema. O sangue jorra das minhas mãos para o meu colo. É viscoso e ainda está quente… E é tão bom!

Continuo a desferir vários golpes no seu peito! De cada vez que a minha lâmina ataca a sua carne cortada de fresco, o sangue salpica-me o rosto! Tenho umas quantas gotas a escorrer lentamente nos meus olhos e nos lábios.

As lesões que faço são profundas, os meus dedos escorregam para dentro do seu corpo mutilado e tenho o prazer de sentir a última gota de vida a sair dele. Sinto-me tão incrível pelo poder de arrancar isso dele! Passo a língua nos lábios e saboreio o gosto do ferro.

— Avisei que me passaria dos cornos. — digo lavando as mãos enquanto o seu olhar baço se fixa no teto.

Ana Catarina Branco
Nº6

O Assassino Misógino

Grisalho e de aparência frágil, ninguém poderia suspeitar, o que o seu cérebro escondia.
Tinha um fascínio pelo brilho das facas, ao mesmo tempo que, um desprezo ao ver uma bela mulher. Este seu lado, passava despercebido, uma vez que se fazia de galanteador para captar a atenção das mulheres, que deliravam com o charme que irradiava.
Homem viajado, bem-falante, contava que já tinha corrido mundo, não se detendo muito tempo no mesmo sítio.
Tudo mudou, no dia em que apareceu a primeira mulher morta. O seu corpo estava dilacerado, com vários golpes profundos. Rapariga alegre e conversadora, fora vista dias antes à conversa com o individuo, na porta de um café, onde ria de forma estridente, de algo que lhe era contado.
Ninguém suspeitava do que tinha acontecido, a polícia recolheu possíveis provas, interrogou todas as pessoas que conviviam com a mulher, sem nada de novo como prova do crime.
Até que, numa noite, andava a polícia a fazer ronda, viu uma sombra que se escondia na entrada de uma porta. Um homem tapava a boca de uma mulher jovem, enquanto na outra mão reluzia a lâmina de uma faca.
O crime fora descoberto!


 

Ana Roque
Nº8

As primeiras vezes não são da exclusividade dos “intas”. Existem muitas mesas disponíveis para os “entas” interessados em degustar novas experiências.
Certa noite estava sentada ao computador, a fazer pesquisas aleatórias, quando me deparado com algo chamado “Eternos Debutantes”. Palerma como sou, achei o nome curioso, e palerma como sou, cliquei no link sem receio de algum vírus de estirpe virtual infetar o meu fiel companheiro! 
A minha imprudência levou-me a um sítio repleto de partilhas de principiantes, absolutamente inspirador! Desde então passei a reservar mesa e a fazer os meus pedidos: “Uma massagem, escalada, slide, ramen, toranja e uma ida ao deserto, por favor!” 
Hoje é dia de riscar uma antiga vontade. É o dia em que irei mergulhar neste compacto bloco de água e sair ilesa. Já não tenho nada a temer e a vida protege-me.
Munida de uma inebriante confiança, fechei os olhos e executei o salto perfeito. Quando os abri não conseguia distinguir a água, das lágrimas que cobriam o meu rosto, mas sentia, claramente, o reconfortante toque do sol. Olhei para trás e já não vi um bloco, mas sim uma doce massa azul, fazendo de nós o seu tempero imprescindível. 
E nisto, pego no telefone e digo “mesa para uma, por favor”


 

Pissarrices
Nº10

A Entrevista

Eram 9:30 quando cheguei para o entrevistar, percebi que estava tenso, mas manteve a postura de alguém que tranquilamente não fez o que fez. Secalhar não tem noção da gravidade da situação, ou será que tem uma justificação que limpe a sua própria consciência?
Fiz algumas perguntas sobre a sua vida no geral e depois comecei a canalizar as perguntas para o assunto que me levou ali. Eu podia ajudar e por isso queria perceber. Andar nos sapatos do outro, é assim que dizem, não é?
Quando começamos a falar sobre o tema mais a fundo, a postura corporal não se alterou, o tom de voz também não,
mas o olhar... Vou lembrar-me para sempre daquele olhar. Ele tinha no rosto o acontecimento. Podia ver nos seus olhos, onde foi, como foi, o que sentiu, como o fez, e até o que pensou.
Quando no relógio apareceram as 10:30, o guarda prisional veio e levou-o, e eu fiquei a saber essencialmente três coisas: o sangue significa a vida de alguém, instrumentos mesmo sem estarem afiados ferem de morte, e nem todos os sapatos nos servem.
Afinal a consciência tem razões que a razão desconhece. 




 

Marília Belmonte
Nº12

Noite

Os meus olhos fecham-se sem me aperceber. O reflexo, no espelho, mostra com clareza que o meu corpo está cada vez mais flácido e desleixado. Uma manta molda a minha figura ao mesmo tempo que se ouve o crepitar da lareira.

Um vulto vislumbra-se e movimenta-se pelas sombras.

Acordo estremunhada com o jogo de luzes. Bocejo e espreguiço-me demoradamente. Esfrego os olhos e afasto os meus pensamentos.

Apago a luz da sala e oiço um estrondo vindo do meu quarto. Malditos vizinhos que não sossegam, nem de madrugada.

Visto o pijama de cetim que desliza sob a minha pele. Coloco o robe por cima para amenizar a temperatura baixa. A janela da varanda do meu quarto estremece, não me recordo de a ter deixado encostada.

Vejo o tapete a mexer se um milímetro. Raio do gato que não vai dormir.

Desisto. Deito-me por fim e apago a luz de presença.

Uma sensação gélida e metalizada percorre o meu abdómen. Coloco as mãos por cima do tecido e estão inundadas de sangue. Contei, com a extremidade das minhas unhas, 5 saliências.

Fecho os olhos e foi a última coisa que fiz.
 

Mariana Lourenço

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