Patrícia Madeira - Para si a escrita é... Um momento de reflexão.

"Uma pessoa genuína, ainda que reservada em alguns aspetos."


Olá Patrícia!

Antes de mais é com gratidão que tenha aceite o nosso convite para esta entrevista. Vamos lá…


Quem é a Patrícia Madeira?

Uma pessoa genuína, ainda que reservada em alguns aspetos. Valorizo muito a empatia e a auto reflexão. Acima de tudo gosto de me colocar no lugar do outro, e valorizo bastante a comunicação. Fascina-me viajar e conhecer novas culturas.


Em que momento da sua vida descobriu o gosto pela escrita?

Sempre gostei muito de escrever, ainda que na adolescência apenas escrevesse poesia. Mas foi na pandemia que essa necessidade sobrepôs-se a qualquer rotina. Desde então, sinto-me incapaz de deixar de escrever (tornou-se viciante).


Sempre teve a vontade de ser escritora?

Sempre tive a ambição de escrever um livro, mas nunca de ser escritora. Porém, escrever o primeiro livro deu-me um prazer tão grande que não me importava de escrever o resto da vida.


"A inspiração surge das minhas vivências, de emoções que experienciei ao longo da vida."

No momento de enfrentar uma página em branco como se sente? Vai primeiro em busca de inspiração, ou ela nasce assim que se senta para trabalhar?

A minha inspiração vem de experiências e sentimentos pelos quais vivi. Sou incapaz de escrever sem sentir. A primeira folha em branco costuma ser aquela em que dou mais de mim, porque é o arranque de algo e encaro-o como a chave de toda a história que se desenvolverá. É na primeira página que procuro dar asas às emoções mais intensas e, depois disso, tudo surge de forma mais natural.


De onde surge a sua inspiração? O que a move?

A inspiração surge das minhas vivências, de emoções que experienciei ao longo da vida. Não faço disso marketing (nem acho correto fazê-lo), mas sem dúvida que qualquer página que escreva deriva de um conjunto de emoções que de certa forma já as vivi ou acompanhei de perto. Por isso, o que me move são os sentimentos, são as pessoas e as suas histórias de vida.


Lançou o seu primeiro livro “Prisioneira do Tempo”, quanto demorou a escrever?

A Prisioneira do Tempo - Recife (livro 1) tinha como objetivo ser uma série para a netflix, concurso ao qual me candidatei. Só depois surgiu a ideia do livro. Realizei uma pesquisa histórica que levou cerca de 1 ano (sem que o objetivo fosse escrever um livro) e a escrita em si levei 4 meses.


"Pois eu diria que uma trilogia não só nos faz viajar como senti-la."

Ao se deparar com a quantidade de páginas, o que sentiu?

Confesso que quando comecei a escrever não dei importância ao número de páginas. Escrevi seguindo uma cronologia histórica e sem apressar as emoções cruciais ao desenvolvimento do enredo. O primeiro livro era para ser dividido em dois volumes, mas as editoras que demonstraram interesse em o publicar sugeriram que a história não deveria ser repartida. Claro que depois tive de reduzir páginas e essa foi a parte do processo mais difícil.


Ao longo do processo de escrita, quanto bebeu da sua pesquisa? Visitou os lugares da história? O que sentiu?

Sim, visitei lugares históricos, mas ainda que tenha visitado várias cidades do Brasil nunca fui a Recife. De qualquer forma, pesquisar sobre como eram cidade há dois séculos atrás implica muita resiliência. Li documentos guardados na torre do tombo, li bulas papais e cartas dos reis, vi documentários, entre outros. Foi um processo demorado e difícil, mas que me deu um prazer enorme.


O seu gosto pelas trilogias vai influenciar de alguma forma?

O meu gosto pelas trilogias prende-se ao facto de através delas ficarmos a conhecer melhor as personagens. As trilogias permitem-nos mergulhar mais intensamente na história, porque as acompanhamos ao longo de várias fases. Costuma dizer-se que pior que não terminar uma viagem é nunca partir. Pois eu diria que uma trilogia não só nos faz viajar como senti-la.


"De mim estão muito das minhas habilitações académicas e formações que realizei ao longo da vida."

Qual a sensação de cruzar personagens fictícias com reais? Foi confuso?

Cruzar personagens reais com fictícias foi um desafio que deu um enorme prazer. Claro que existiu a dificuldade acrescida de me certificar sempre se aquela personagem real estava naquele dia naquele local específico. Obriguei-me a ser o mais fiel possível aos acontecimentos reais. Não diria que seja confuso, mas foi sem dúvida difícil. Tive de garantir que nenhum estava no local e na data errada, de forma a que não existissem incongruências.


O quanto de si diria que está representado na sua história?

De mim estão muito das minhas habilitações académicas e formações que realizei ao longo da vida (desde o curso de psicologia, a terapia a crianças, piano, linguagem gestual...). E muitas das minhas reflexões também estão lá, sejam relacionadas com temas importantes que o livro aborda (homossexualidade, suicídio, abandono de crianças, machismo, etc).


O quanto desafiante foi escrever este mundo?

Escrever um romance histórico é por si um desafio. Primeiro porque temos de pesquisar muito. Segundo porque todos os dados (fictícios e reais) têm de se fundir de forma congruente e credível. Terceiro, porque nem sempre se tem acesso fácil a documentos históricos. E, por fim, porque fiz questão de que este romance histórico tivesse uma escrita apelativa, procurando assim dissipar o estereótipo que ainda existe sobre os Históricos serem livros mais aborrecidos.


"O livro é um romance histórico porque sempre adorei saber mais da Nossa História."

A continuação, está prevista sair para quando?

A continuação está para muito em breve (finais de maio). Terminei o processo de escrita do segundo em outubro de 2021.


Que géneros literários gostava de explorar enquanto escritora?

Gosto de todos os géneros, à excepção de fantasia (ainda que seja fã de Harry Potter). Já comecei a escrever uma nova história, desta vez um romance mais contemporâneo. Gostava de um dia me aventurar num thriller psicológico, mas o que quer que venha a escrever terá sempre de ser sentido, ou de outra forma não saberei fazê-lo.


Dedica-se à psicologia, visto ser a área onde se graduou?

Sou psicóloga e inevitavelmente gosto de explorar temas que nos façam refletir. Contudo, o livro é um romance histórico porque sempre adorei saber mais da Nossa História.


"É necessário que cada um leia o que quiser, sem sofrer influências de ninguém".

Como encaixa a sua área e a escrita?

A minha área de formação com a escrita estão muito relacionadas, acima de tudo porque a psicologia se centra muito nas pessoas, reflexões e auto-conhecimento.


Como vê o processo editorial em Portugal?

Em Portugal ainda continuamos a ler mais autores que vêm de fora. Mas o que torna o processo ainda mais difícil é termos poucos hábitos de leitura. Temos poucos leitores assíduos, e os leitores pontuais vão sempre apostar em escritores já muito conhecidos e internacionais.


O que acha na sua opinião que devia ser feito em Portugal para atrair mais leitores e de alguma forma promover mais os autores nacionais?

Acima de tudo é um problema cultural (achamos que o que vem de fora é sempre melhor e pior ainda é o receio que temos em apostar no que é novo). Julgo que o mais importante é incutir hábitos de leitora desde muito cedo. Mas para isso é necessário que cada um leia o que quiser, sem sofrer influências de ninguém. Afinal, todos temos gostos diferentes e o que eu gosto pode não ser do agrado de outra pessoa. É necessário respeitarmos isso.


"Abordar sempre temas relevantes e que nos façam refletir de alguma forma".

As redes socias na sua opinião são uma boa forma de promover o seu trabalho?

As redes sociais ajudam imenso. Mas sabemos também que existe um mundo além das redes sociais e que compram livros sem seguirem páginas online. A essas só conseguimos chegar por sorte nas livrarias.


Tem alguma “condição” especifica para com os seus livros?

Existem 2 condições para qualquer livro que escreva:

  1. Abordar sempre temas relevantes e que nos façam refletir de alguma forma.

  2. Transmitir ao leitor muitas emoções, e fazê-lo da forma mais genuína possível. Tenho de sentir o que estou a escrever para mais facilmente transmiti-lo ao leitor.

O que espera daqui para a frente enquanto escritora?

Espero que continuem a gostar dos meus livros, independentemente do género literário que escreva. E, acima de tudo, dar ao leitor sempre algo (seja uma reflexão, reviver emoções, uma aprendizagem, etc).


"É essencial que o autor sinta o que escreve, pois só assim transmitirá maior veracidade."

Gostava de se internacionalizar?

Internacionalizar as histórias que escrevo é sem dúvida o meu maior sonho literário. Adorava poder publicar esta trilogia em formato físico no Brasil, até porque a história decorre lá. Além disso, o povo brasileiro é muito nacionalista e cada vez mais procuram aprofundar conhecimentos sobre as suas raízes e a Nossa História.


Para si a escrita é…

A escrita acaba por ser um momento de reflexão. Um processo de libertação criativa, no qual o nosso inconsciente se torna menos oculto. É essencial que o autor sinta o que escreve, pois só assim transmitirá maior veracidade.


Qual(quais) são os seus livros favoritos?

Não tenho um único livro preferido. Mas qualquer um que me faça chorar ou me ensine sobre algo específico. Os históricos ensinam-me sempre muito. E um romance maduro e sentido, são aqueles que mais me emocionam. Posso dizer que tenho um grande carinho por qualquer um do Sidney Sheldon, pois foram os livros dele que me fizeram apaixonar pela leitura.


"Desde que sou mãe, que nos tempos livres tento o máximo estar com eles".

Em que horas do dia escreve? Tem algum lugar preferido? Prefere estar só no seu espaço, ou pode existir ruído?

Tendencialmente escrevo à noite, no escritório de casa. E prefiro o silêncio ou ao som de música clássica/instrumental, para mergulhar mais facilmente nas emoções.


Quais são os seus hobbies?

Hobbies: viajar, cinema, ler, uma caminhada na praia. Desde que sou mãe, que nos tempos livres tento o máximo estar com eles.


Qual o termo que mais gosta: Autora ou Escritora?

Autora ou escritora? Talvez autora. Porque escritores somos todos.


"É para vocês e por vocês que continuarei a escrever".

Deixe uma mensagem para quem quer entrar neste mundo da escrita:

Escrevam aquilo que mais gostam e não sigam modas. Só assim é possível transmitir a nossa paixão naquilo que escrevemos.


Deixe uma mensagem para quem a acompanha:

Serei eternamente grata pelo carinho que me têm dado e pelas mensagens de apoio que tenho recebido. É para vocês e por vocês que continuarei a escrever.


Deixe uma mensagem sobre o seu novo livro:

É um livro que aborda vários conteúdos importantes (e fundamentais naquela época) e repleto de emoções. Uma história que mistura personagens verídicas com fictícias. Uma mulher do século XXI que viaja no tempo para o século XIX, quando a corte portuguesa estava no Brasil (ainda uma colónia portuguesa). Uma mulher como nós que será confrontada com a misoginia da época, o preconceito, a escravatura, o abandono de crianças, entre tantos outros temas. Uma história repleta de reviravoltas e que muito nos fará refletir. Uma mulher que irá apaixonar-se por um militar português e com o qual irá vivenciar a revolução pernambucana.


Muito obrigada, “Entre Palavras”

05-04-22


A obra da Autora:



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