André Silva - Para si a escrita é... Psicanálise e brincar com ideias.

"Nessa altura, a minha mãe sugeriu o caminho da escrita, algo que nunca tinha refletido anteriormente."

Olá André!

Muito obrigada por ter aceite o nosso convite para esta entrevista.

Vamos a isso…


Quem é o André Silva?

Uma pessoa extremamente curiosa e criativa. Estes são os traços mais caraterísticos da minha personalidade. Outra forma de ver a minha pessoa, sou como um colibri que salta de flor em flor, procurando o néctar mais adequado.


Como a escrita entrou na sua vida?

Tudo começou quando acabei a universidade. Havia chegado à conclusão de que o mundo da Biologia não era apropriado para mim, pelo que fiquei «à deriva» durante algum tempo. Nessa altura, a minha mãe sugeriu o caminho da escrita, algo que nunca tinha refletido anteriormente. Ponderei, e, de facto, comecei a escrever alguns textos para desenvolver a minha disciplina no que diz respeito à escrita criativa.


Que palavra melhor o define?

Experimentalista seria a melhor palavra.


"Posso ter uma ideia, começar a escrever, mas se não souber o que fazer à história surge um bloqueio criativo."

De onde surge a sua inspiração? O que o move?

Para mim, qualquer coisa pode despoletar a inspiração. Nesse sentido a minha imaginação é descontrolada. Consigo observar qualquer cenário na rua, num bar, num café, ou num ambiente social, deparar-me com um caso específico, conhecer algo relacionado com um facto científico inexplorado ou uma polémica, que a minha criatividade começa imediatamente a fluir. Deste modo, tudo é passível de trazer ao de cima uma nova vontade de explorar um conceito nunca estudado por mim.


Sempre pensou em fazer carreira na área da escrita?

Sim, confesso que sim. Contudo, é algo extremamente difícil em Portugal. Não só devido à elevada exigência do mercado, como também devido à forma como os próprios meios editorais operam. Já para não falar no público-alvo… Desta maneira, apenas utilizo a escrita para ocupar a minha mente e enriquecer a minha criatividade, sendo, neste momento, um hobby pelo qual resido apaixonado.


Já se sentiu perdido em frente de uma folha em branco?

Oh, sim… muitas vezes. Isso só acontece quando me evolvo num projeto e não tenho definido o rumo que lhe vou dar. Posso ter uma ideia, começar a escrever, mas se não souber o que fazer à história surge um bloqueio criativo. Nesse sentido, deveria ser mais disciplinado e pragmático.


"A ciência faz parte de um processo que ainda é bastante embrionário."

Sendo Biólogo molecular e celular, de alguma forma influência os seus livros?

É certo que semelhante formação influenciou estes dois últimos trabalhos, «Deus Surgido da Máquina» e «As Novas Leis de Darwin». Tanto um como o outro estão relacionados com a temática da evolução, um assunto que sempre me cativou. Tive de me basear nos meus conhecimentos, bem como noutros livros que já tinha lido ou pesquisado. Alguns exemplos, «O Macaco nu» de Desmond Morris, «Sapiens – breve história da humanidade» de Yuval Harari e, claro, nas experiências Neodarwinistas que foram descobertas a partir dos estudos de Darwin, «A evolução das espécies».


É uma área onde trabalha? Como é conciliar as duas áreas?

Desisti completamente do mundo científico. Gosto de especular em determinadas áreas, mas não é um ramo onde coloco a minha energia em termos profissionais. A ciência faz parte de um processo que ainda é bastante embrionário. Para além do mais, o que era um dito «facto científico» há alguns anos, pode ser visto atualmente como um mito, e por aí fora. Trata-se de um processo em desenvolvimento; quanto ao mundo da criatividade, não há nenhum limite para a mesma.


Em 2020 publicou dois livros “Uma Boa Dose de Humor Negro” e “Sobre Homens e Ratos” em duas editoras diferentes. Porque optou por fazê-lo?

Deveu-se a razões económicas. Infelizmente, essa realidade faz parte da maioria dos novos autores em Portugal.


"Desejava, com toda a minha vontade, ver os meus trabalhos publicados e manifestados no papel."

Onde foi buscar inspiração para estas obras? A inspiração para os títulos?

Essas duas obras refletem o meu estudo em relação à temática Portugal e os portugueses. Baseiam-se nas caraterísticas que a nossa sociedade apresenta, bem como nas suas crenças, valores, hábitos e ambientes sociais. Acabei por focar-me em duas áreas locais, Setúbal e a freguesia de Santiago do Escoural, no Alentejo. «Uma Boa Dose de Humor Negro» apresenta como pretexto incentivar à polémica de uma nova visão, algo mais humorístico. Nós, enquanto portugueses, ainda permanecemos extremamente agarrados a valores tradicionais; pretendia quebrar a severidade e nostalgia nacional de uma forma cómica e crítica. Já quanto à obra «Sobre Homens e Ratos», o título veio de Steinbeck, «Of Mice and Men», sendo que o livro é uma adaptação da cultura americana durante a depressão do século passado para a contemporaneidade do Alentejo.


Todos os seus livros abordam o mesmo conceito?

Não. «Uma Boa Dose de Humor Negros» e «Sobre Homens e Ratos» refletem os ideais da maioria dos portugueses, bem como conflitos de valores morais que a nossa nação apresenta. Quanto aos trabalhos mais recentes, os mesmos especulam sobre a evolução humana. Tento nunca ficar preso a uma temática ou um estilo de escrita particular, bem como a um certo conceito fixo.


Em 2022 lança dois livros pela editora Cordel D´Prata, no início do ano publicou “As Novas Leis de Darwin”, em abril publicou “Deus surgido da Máquina”, porque esta escolha em publicar dois livros com tanta pouca diferença?

Na realidade, isso esteve mais relacionado com o processo de edição. Caso contrário, a publicação teria ocorrido em diferentes localizações temporais. Por outro lado, correspondiam a duas obras que significavam muito para mim. Desejava, com toda a minha vontade, ver os meus trabalhos publicados e manifestados no papel; era uma paixão fervente. Existia (e continua a existir) um enorme carinho pelos mesmos.


"Quando escrevo, gosto de separar aquilo que experimentei diretamente, isto é, para obter um maior nível de imparcialidade."

Qual foi o impacto para si em criar essas duas obras?

Extremamente grande, dado que decidi explorar o mundo científico, a minha formação básica. Em suma, enveredei num rumo completamente desconhecido e foi entusiasmante. Possuindo um conhecimento-base mais profundo nessa área, foi bastante entusiasmante ter colocado as minhas ideias em prática. Dediquei-me bastante à elaboração desses dois trabalhos, embora tivesse acabado num processo esgotante. No final de tudo, fiquei extremamente gratificado pelo meu esforço.


Pode-nos falar um pouco de “As Novas Leis de Darwin”, visto que esta história complementa o seu novo livro.

Foi escrito durante a primeira quarentena da pandemia do COVID-19. Foi especial, dado que terminei o «primeiro rascunho» em vinte dois dias, o mesmo número de capítulos que a obra apresenta. Reflete a evolução do ponto de vista metafísico, perguntando ao leitor que tipo de pessoas merecem residir no futuro. Gostei de elaborar as características que reúnem a dinâmica da personagem principal. Basei-me em estudos de tipologia. Para além do mais, a obra desdobra-se em torno do chamado «Darwinismo social», porém numa componente que envolve quer os diversos quadros socioeconómicos, bem como fatores comportamentais e psicológicos. «Deus Surgido da Máquina» aplica semelhantes assunções num mundo futurístico de ficção científica.


O quanto de si, das suas vivências está nos seus livros?

Vivências pessoais, muito poucas. Quando escrevo, gosto de separar aquilo que experimentei diretamente, isto é, para obter um maior nível de imparcialidade. As ideias que tenho, bem como ideais, convicções ou crenças, estão presentes nos livros. No entanto, em termos de vivências não existem muitas referências diretas. No máximo, posso afirmar que fui antes uma testemunha. Isto ocorre especialmente na obra «Sobre Homens e Ratos», a qual é uma visão pessoal do mundo alentejano.


"Caminho passo a passo até chegar onde consigo alcançar."

“Deus surgido da Máquina” tem uma extensão de páginas, como se sentiu ao ver a quantidade delas? Já tinha a ideia de fazer uma obra tão extensa?

A obra foi realizada sozinha. Nunca estive muito ciente do trabalho que estava a executar, sendo que um ponto levava a outra questão moral, e um caminho conduzia a outro caminho para a ação. Com o tempo, uma ideia acabava por gerar um ciclo, surgindo várias ramificações. O objetivo final foi, pois, a justaposição de todos os pontos de vista que a obra dispõe. Ao verificar que tinha elaborado algo tão extenso, fiquei surpreendido, mas ao mesmo tempo desanimado. Primeiramente, pensei descartar o texto, mas tive de limar arestas e acabar por me apaixonar pelo que havia criado.


Até onde quer levar a sua obra?

É complicadíssimo responder a esta pergunta, pois nunca sabemos o que o destino tem preparado para nós. Nesse aspeto, prefiro nunca pensar no futuro. Caminho passo a passo até chegar onde consigo alcançar.


Defina numa palavra o seu novo livro.

Explosivo.


"Acabo por adorar e amar as minhas criações à minha maneira."

Enquanto autor que outro género gostava de explorar?

Quase todos os géneros me interessam. Tenho um especial fascínio por terror/horror, -noir, contos, teatro e novelas de crime ou thrillers. Como afirmei, sou fascinado por qualquer coisa.


Se fosse hoje, mudaria alguma coisa nos seus livros?

Algumas falhas que passaram despercebidas. No entanto, tento não me focar nas mesmas, ou acabo por trazê-las de volta ao presente (isto é, caso a lição não tiver sido aprendida). Apenas me resta aceitar os aspetos que correram como pretendia, bem como os menos positivos. Acabo por adorar e amar as minhas criações à minha maneira.


Gostava de se internacionalizar?

Isso seria um sonho, com certeza!


"Esses autores ajudaram-me a construir ideias sobre o que haveria de escrever."

Qual (Quais) os autores que gosta? Quais as obras que o inspiram?

Tenho três paixões literárias: Dostoievski, Hermann Hesse e John Steinbeck. Esses autores ajudaram-me a construir ideias sobre o que haveria de escrever. Quanto às obras que me inspiram, gosto de clássicos e livros que demostram conceitos básicos de forma complexa. Daí o meu fascínio por psicologia humana, bem como estórias circulares e um certo tipo de «magia» nos ambientes mais vulgares.


Publicou numa editora vanity, no seu ponto de vista, é um caminho que recomendaria a novos autores?

N/respondido


Pretende continuar a publicar na mesma editora ou gostava de tentar uma tradicional?

N/respondido


"A imaginação não é moralmente errada, nem nunca deveria ser."

Enquanto autor vê-se a autopublicar? No seu ponto de vista é uma opção em crescimento em Portugal?

Deve ser um ramo que se encontra em desenvolvimento em Portugal. Quanto à autopublicação, aconselharia os autores a desenvolver um público-alvo bem estabelecido, esperando alcançar conhecidos e pessoas previamente interessadas nas suas obras. Caso contrário, não tenho grande conhecimento de casos de autopublicação, excetuando aqueles que me foram mostrados.


Para si a escrita é…

Psicanálise e brincar com ideias.


Tem alguma “condição” para com os seus livros?

Não deve existir condição nenhuma. Gosto de diversificar os temas que aprecio. Dessa forma, reconcilio a minha escrita com as mais diversas temáticas que me despertam fascínio e um dado «brilho nos olhos». A imaginação não é moralmente errada, nem nunca deveria ser. A única condição que dou para com os meus livros está relacionada com ética de trabalho, disciplina, regularidade e perfeccionismo.


"Os tempos mudam, tornando-se necessário habituar a nossa pessoa a semelhante transformação."

Na sua opinião, as redes sociais são uma boa forma de promover o seu trabalho?

Considero que sim. Apesar de ser um pouco adverso às mesmas, as redes sociais tornaram-se quase imprescindíveis nesta nova época de divulgação de trabalhos artísticos. Os tempos mudam, tornando-se necessário habituar a nossa pessoa a semelhante transformação.


Quando escreve prefere o silêncio? Onde gosta mais de escrever?

Gosto de escrever em qualquer sítio, desde que seja descontraído e relaxado, sem grande movimentação exterior. No entanto, não aprecio o silêncio. Coloco, como background sound, alguns sons Hertz ou determinadas músicas instrumentais para me conectar com a escrita e acabar por expressar as minhas ideias conforme as melodias.


O que acha na sua opinião que devia ser feito em Portugal para atrair mais leitores e de alguma forma promover mais os autores nacionais?

As editoras mais conhecidas deveriam, com certeza, ser mais abertas à hipótese de novos autores. Portugal aparenta dispor de uma certa «elite» que é somente acessível às mesmas. Quanto às de menores dimensões, considero que a divulgação mais rigorosa do trabalho dos seus clientes tem de ser algo fundamental. Dessa forma, cada livro termina na devida mão correta.


"Sou encantado por tudo aquilo que desconheço."

Como vê o processo editorial em Portugal?

Para ser sincero, terrível em muitos aspetos. As editoras impõem presságios elevados aos autores, prometem mais do que acabam por cumprir e não há um bom sistema de divulgação das obras que chegam a ser publicadas. No fundo, acaba por ser mais um comércio do que uma paixão pelo movimento literário português.


O que espera daqui para a frente enquanto escritor?

Gostaria de especificar-me em novas temáticas e examinar novos ramos da escrita, bem como novos juízos morais e assuntos controversos. Sou encantado por tudo aquilo que desconheço. De resto, melhorar o meu trabalho e continuar a seguir em frente.


Deixe uma mensagem para os seus leitores:

Prometo surpreender tanto pelo lado positivo, como pelo negativo.


"Sigam as suas paixões e temáticas."

Deixe uma mensagem para quem pretende escrever:

Escolher um grupo de escritores preferidos seria o primeiro passo (sejam estes contemporâneos ou não). Sigam as suas paixões e temáticas. Aconselharia também realizar exercícios de disciplina, textos experimentalistas e pedir a opinião externa. De resto, não liguem ao mercado nem às consequências ou receção por parte do público.


Deixe uma mensagem sobre o seu novo livro:

Se neste universo coexistisse uma nova espécie de seres humanos, descendentes evolutivos da nossa, como seriam tratados pelos seus precursores, nomeadamente os Sapiens?


Muito obrigada, "Entre Palavras"


Obras do Autor:











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