André Gomes - Para si a escrita é... uma forma que eu encontrei para superar os meus traumas.

Atualizado: 11 de nov.

"Tenho muitas ideias constantemente que quero usar para ajudar a criar um mundo melhor."

Olá, André!

Muito obrigada por ter aceitado o convite para esta entrevista.

Vamos lá!


Quem é o André Gomes?

Vou tentar fazer o meu melhor para descrever a minha pessoa. Sou um misto de alguns traços. Mesmo que tenha apenas 32 anos, já tive uma vida bem complexa. Muitas vezes demais para o meu gosto. Mas todos nós temos de chorar, gritar ou desabafar um pouco por vezes. Sou honesto e digo a verdade na cara das pessoas mesmo que doa. Sinto-me mal se sou demasiado brutal com alguém ou quando fica alguma coisa por dizer. Sou um sonhador, sim. Mas tenho os pés bem assentes na terra. Luto até ao fim, doa o que doer, até às últimas consequências.

Odeio pessoas que cruzam os braços e ficam à espera de que algo melhor aconteça por si mesmo. Eu luto pelo que acredito e ver alguém a cruzar os braços como que “Vem até mim solução”, isso deixa-me irritado.

Tenho muitas ideias constantemente que quero usar para ajudar a criar um mundo melhor.


Quem é o António Madrugada?

Ele é um espírito dentro de mim que me leva a escrever poemas daquilo que vê pelos meus olhos. Ele é muito tímido e acanhado. Apenas aparece quando tem algo a dizer.

É um puro crítico e puramente honesto. Eu aprendi isso com a sua personalidade. Ele é, o meu mestre. Ele por vezes também é um louco, mas não num mau sentido. Ele é bem diferente da minha pessoa que escreve contos e histórias. Ele não diz nada por meias palavras. Às vezes deixo-me guiar por ele enquanto escrevo um conto. Ele é o meu mestre de filosofia.


O que o levou a criar este pseudónimo?

António Madrugada nasceu a partir do luto e da dor. Sem entrar em muitos detalhes, sendo que estes assuntos ainda são tabus na nossa comunidade. António “nasceu” em honra de muitos irmãos ou irmãs que não conseguiram ver a primeira madrugada, inclusive na minha família.


"Não importa o que acontece, erguer a cabeça é a chave para isso."

Onde vai encontrar inspiração?

Tudo o que os meus olhos vêm. Olhar para um objeto, uma situação ou uma pessoa.

Olhar para coisas simples é o que desencadeia uma chuva de ideias. Quando acontece algo na rua e se houver uma reação forte a esta, é certo que vou escrever sobre isso. Muitas vezes, crítico aquilo que eu quero mudar para melhor. Eu escrevo a solução para o problema. Isto, porque acho que é pura hipocrisia apenas criticar e não fazer nada para mudar o mundo. Eu proponho uma solução complexa ou simples. Tudo tem uma solução, exceto para uma coisa.


O André é sem dúvida um artista multifacetado, como é conciliar todas estas vertentes artísticas?

Quando se ama o que se faz faz-se de tudo para que possa acontecer. Não importa o que for. Se há uma batalha, esta terá de ser ganha e em último caso, perdida. Não importa o que acontece, erguer a cabeça é a chave para isso. Conciliação é natural quando se gosta realmente daquilo que se é feito, mas ao mesmo tempo, para contrariar, pode ser muito difícil.

Depende muito dos dias, das ideias e o grau de dificuldade que essa ideia tem. Palavra-chave é lutar. Sim, lutar muito pelas coisas em que se acredita. E eu acredito que é necessário deixar de lado o pensamento mais mesquinho que possamos ter, que é o de desistir sem nunca ter encontrado uma solução.


Acredita que a mudança de País foi um ponto positivo na sua carreira enquanto escritor?

Ao contrário do que muitos acreditam, a mudança de país para mim apenas foi benéfica. Já tinha vivido na Romênia quando tinha apenas 23 anos por minha conta e todos diziam o quanto eu desperdicei a minha vida. Quando na verdade foi o melhor da minha vida até hoje. Sem nunca ter ido para a Romênia, nunca teria vindo para a Bulgária. Os meus pais ainda me tentam convencer do contrário, infelizmente. Apenas numa pequena contextualização: Enquanto vivia em Portugal eu não tinha nada e vivia numa aldeia que apenas acentuava o meu vazio como escritor e, também a minha vida profissional e pessoal. Nada me prendia ao lugar que me fazia reviver o negativismo dos meios pequenos e a dor do passado. Viver numa aldeia tão pequena, que há quinze anos nem existia no mapa. Longe de tudo e de todos, apenas dava mais asas à dor é à depressão.

Quando imigrei tornei-me muito mais criativo. Hoje, as ideias fluem mais livremente e eu apenas sou feliz com a minha luta. Tudo o que eu considerava problemas hoje são apenas boas soluções. E claro, tenho independência economia e emprego bom. Adoro viajar pelos países dos Balcãs. Adorei as viagens que fiz à Grécia, Sérvia, Bósnia, Romênia, Hungria, Croácia e à Eslovénia.


"Importante nunca desistir e inspirar outros a escrever e a publicar."

Como gere o voluntariado no seu dia-a-dia com tantos projetos?

Infelizmente não tenho conseguido fazer voluntariado nos últimos 3 anos, porque não consegui encontrar uma associação que mereça o meu carinho e as minhas ideias.

Durante 5 meses fui voluntário num micro museu. O museu das Abelhas de Sófia. Durante esse período eu usei a minha criatividade e imaginação para ajudar o museu.

Quem cria coisas, não significa que tem de pôr essas ideias numa folha de papel. As ideias não devem ter fronteiras e passar para além de todas as barreiras do sonho.


Defina-se numa palavra?

Complexo. Muitos não se atrevem a querer conhecer-me melhor porque eu tenho a minha própria perspetiva sobre tudo o que é ou existe.


Escreveu o livro “A Vida é, por si mesma, um paradoxo” e o livro “Poemas movem Montanhas”, como foi a experiência?

Penosa. Muitas lágrimas e gritos. Muitas vezes sentia-me puramente irritado.

O mundo dos livros é puramente complexo. Tentei contactar muitas editoras, mas sempre que ouvia os preços apenas queria fugir.

Por algumas vezes, quase que queimei ou eliminei tudo o eu que tinha. Por sorte não o fiz.

Mesmo assim, mesmo com alguns livros editados por mim na plataforma Amazon, eu levo a dura chapada da realidade da indústria dos livros e das editoras. Muitos que tinham livros para editar “queimaram” os seus manuscritos porque os preços que muitas editoras pedem não são justos, os acordos não são justos quando é o escritor que teve o trabalho todo de escrever o livro em si. Muitos escritores desistem e a culpa é mesmo dos preços que são pedidos. Muitas das grandes editoras não criam pacotes especiais para atrair novos escritores e ficam com os mesmos nomes já “gastos” e que todos os leitores já estão cansados.

Daí a minha experiência no geral ter sido mais negativa do que positiva.

Mas na perspetiva bem mais positiva, dois escritores foram inspirados pela minha luta e ambos publicaram os seus livros. Importante nunca desistir e inspirar outros a escrever e a publicar. Se ler estas palavras espero que se sinta inspirado.


"Ambos os livros têm uma forma muito distinta de escrita."

O que define estas duas obras?

Ambas as obras são de momentos diferentes da minha vida. “Poemas Movem Montanhas” supostamente deveria ter sido o primeiro livro a ser publicado. Contudo nunca encontrei uma solução para o editar. Em 2019, uma vez que estava em transição entre empregos, encontrei a plataforma KDP da Amazon. De setembro até outubro resgatei todos os poemas que pude encontrar escondidos em locais que nunca tinha explorado do meu computador e criei o livro “A Vida é, por si mesma, um paradoxo” que primeiramente era para se chamar “Tiques Nervosos”. Mas este nome não era novo. O nome veio de um caderno roto pelo tempo que infelizmente foi perdido, mas que felizmente resgatei ao tirar fotos das páginas. Algum tempo depois, este desaparece das minhas estantes. Mas isso já é outra história.

Este ano, o meu desejo puro de encontrar uma editora manteve-se. Mas mesmo assim, não encontrei um acordo que me satisfazesse. Então, como sempre, fiz uma capa, eu mesmo, do livro, revi todos os erros do material que iria ser o livro “Poemas Movem Montanhas”. Publiquei-o em Março deste ano na Amazon como uma edição especial.

O mesmo é dividido em duas partes ou dois livros com dois temas diferentes nos poemas.

Ambos os livros têm uma forma muito distinta de escrita. Sendo que um é a evolução do outro. Desde um rapaz tímido que chorava e rezava à lua sobre os amores platónicos para um rapaz mais feliz, mas mais atento e mais crítico ao mundo em redor.


Qual foi a sensação de os ver traduzidos para inglês?

Foi necessário. Recomendo que muitos escritores Portugueses o façam, para trazer novos horizontes às suas obras.


Enquanto autor que outros géneros, gostaria de explorar?

Atualmente estou a escrever 3 manuscritos de contos de fantasia e ficção científica que quero terminar até ao fim do ano o no início do próximo. Fingers crossed.


Como foi o processo do livro “A Vida é, por si mesma, um paradoxo”?

Complexo, mas muito divertido. Contudo, no início foi uma altura de muito stress e recuperação de um Burnout.


"Não há arrependimentos naquilo que disse ou escrevi."

Como foi o processo do livro “Poemas Movem Montanhas”?

Mais fácil, quando já tenho experiência e sabedoria. Mas fica sempre a mágoa do passado. Sem stress e recuperação completa do Burnout.


Que diferença vê entre o meio editorial de Portugal e da Bulgária?

Infelizmente, pelas três vezes que tentei contactar editoras Búlgaras, eles não publicavam escritores portugueses ou outras línguas a não ser que esses livros sejam traduzidos para Búlgaro. E isso é caro. E mesmo a tradução é um processo difícil e demorado, sem contar com a pura dificuldade da burocracia Búlgara. Pior que a burocracia em Portugal.


Se fosse hoje, mudaria algo nos seus livros?

Não. Se quis que eles fossem escritos assim. Não há arrependimentos naquilo que disse ou escrevi.


Como ultrapassa uma folha em branco?

Há várias formas. Buscar coisas que me inspiram. Beber um bom vinho ou uma cerveja apenas. Beber um bom chá qualquer que tenha frutos. Beber um café sem cafeína no parque, isto porque infelizmente o organismo é intolerante à cafeína. Ler Tolkien pela milésima vez. Ouvir metal sinfônico tal como Nightwish ou Épica. Mas acima de tudo Nightwish a bombar nos headphones enquanto escrevo.


Que autores o inspiram?

O mestre da fantasia, Tolkien, CS Lewis, Terry Goodkind e Neil Gaimain.


"Cada palavra que escrevi em todos os meus livros, cada palavra representa uma cicatriz que cada um dos leitores pode também dizer."

Existe algum projeto em desenvolvimento que possa partilhar?

Há alguns. Mas infelizmente está parado porque é difícil o desenvolvimento de tantas ideias.

1- Tentativa de criar uma Associação Cultural Portuguesa. Parada por falta de investidores que queiram ajudar.

2- Criação de uma pastelaria portuguesa aqui em Sofia. Parado pela mesma razão.

3- Criar uma série de anime portuguesa para ser adaptada para uma plataforma de distribuição audiovisual como a Netflix. Escrevi dois guiões para que os animadores da série possam se guiar e criar o projeto. Contudo, consegui arranjar uma equipa que escreve ficção científica tal como eu, mas não consegui trazer animadores ao projeto ainda.

4- Dentro da mesma ideia, sendo que pertenço à comunidade de Ficção científica de Portugal, fui convidado para escrever pequenos contos de SCI Fi e esses mesmos serem parte de uma antologia com outros autores. O projeto, mesmo que a carvão, está em processo.

5- Junto com a associação de Woman Expacts of Sofia, por causa de ser um dos membros mais ativos da nossa comunidade, irá ser feita uma feira de Natal num dos malls da cidade. “Xmas Extravaganza”, onde haverá stands para vender coisas. Eu quero trazer produtos nacionais para os promover nesse stand. Alguém interessado?

Mesmo que alguns ainda estejam em processo ou parados a minha luta é constante até que haja uma solução.


Para si a escrita é…

Uma forma que eu encontrei para superar os meus traumas. Eu aprendi muito enquanto escrevia. Cada palavra que escrevi em todos os meus livros, cada palavra representa uma cicatriz que cada um dos leitores pode também dizer. “Eu também senti algo muito parecido e sei o que custa”, por exemplo. Escrever foi a minha única maneira de processar as coisas. Caso contrário eu não era ninguém.


"Acreditem que os sonhos são possíveis, basta apenas lutar um pouco mais."

Deixe uma mensagem para os seus leitores:

Neste mundo existe sempre uma aldeia, no sentido figurativo ou não, que nos absorve, condensa e nos impede de seguir os nossos sonhos. Há sempre um local que nos engole como um buraco negro e que não nos deixa sair. O tempo nesse lugar passa tão lento e encharca o nosso espírito com solidão, ansiedade e outras coisas que nos fazem tão mal. Lutar. Sim, lutar muito por aquilo que acreditamos é a chave para realizar os sonhos. Desistir é como ir no balanço de uma maré das nossas dúvidas, medos e frustrações e deixar-se ir nela e desistimos de remar. Daí, eu detestar quem cruze os braços. E porque se deixam ir nessa maré, é mais fácil estar quieto no canto. Muitos acreditam, que é melhor assim, o contentamento é o que serve melhor.

Muitos Portugueses vão no balanço dessa maré, infelizmente. Vem a banalização de muitas coisas que não deviam ser normais.

Se odeiam o contentamento, sejam deuses de vós mesmos e dos vossos destinos. Acreditem que os sonhos são possíveis, basta apenas lutar um pouco mais. Um pouco mais de esforço e motivação.


Partilhe connosco uma passagem do seu recente livro que mais goste:

Sendo honesto contigo,

Admito que amo ser teu,

Neste clandestino, nem ligo,

Apenas ser teu é o privilégio só meu,

Que muitos nunca tiveram e queriam,

Navegar no teu mar doce de ternura,

Sem entenderem o teu fogo, e se queimaram.


Esse fogo de paixão que perdura,

E eu que amo esse teu calor,

Que me acalma e adormeço no teu regaço,

Esse amor infinito, que é o puro amor.


Que apesar do nosso clandestino,

Tu cegas os invejosos com essa chama,

E iluminas quem te ama,

Amo amar te no clandestino.


António Madrugada

12-10-2015


Este poema fala de um amor de que muitos têm inveja e que muitos querem destruir por isso mesmo. E do quão forte podes ser para lutar contra os que te querem ferir e à pessoa que amas, só porque eles não tiverem a mesma química ou paixão que muitos querem ter e não tem com a pessoa que tem no momento.


Muito obrigada, Cristina, “Entre Palavras”


Obras do Autor:















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